Irreconhecível
Me procuro lenta
Nos teus escuros.
Como te chamas, breu?
Tempo.
(Hilda Hilst: Da Morte, Odes Mínimas)
Hoje eu sou Billie Holiday interpretando uma canção qualquer. Sou a ponta de um cigarro, que lentamente queima . Não sou tristeza, mas, sou solidão. Hoje eu sou a brisa que entra pela janela do carro. Sou um coração de metal arranhado. Sou capuccino na mesa do café. Sou a chave na escrivaninha. O porta-retrato sem lembrança. A água que escorre no rosto paralisado no escuro do banheiro. Hemoptise. Hilda Hilst feroz. O silêncio do quarto vazio. Sou a folha seca da primavera na calçada das casas logo pela manhã. Sou frases de Lispector e trechos de Caio. Sou cereja com gosto de amora.
Sou o sono silencioso no canto da cama. Cena de filme de Gus Van Sant. Melodia baixinha da caixa de som que embala madrugada a dentro. Sinal fechado. Pensamento torpe. Trago pós banho. Corpo mergulhado em banheira com gelo. Um telefonema de horas. Um abraço de despedida. O canto de um pássaro. Sou um entrelaçar de dedos. Passos sem pressa. O sentimento de realização. Orgulho. Sou uma viagem com pessoas queridas. Um bálsamo benigno. A paz que habita no fundo de mim.
Um comentário:
Uhh...cada vez mais foda!
A garota vai longe.
Adoro jazz instrumental. Quando é cantado, consigo escutar poucas cantoras e Billie Holiday está entre elas.
ρ
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