quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Você pediu...

Eu era de longe algo significante em sua vida. Observava distante a sua felicidade. Nas costas tinha uma mala cheia de nossos momentos. Nós éramos riso. Ela era um sorriso. E eu era um sorriso. Foi um bom tempo. A vida dela não cruzava em nenhum instante a linha da minha. Exceto quando ela rolava na cama comigo entre um gole e outro. Assim quando sentia-se cansada da sua vidinha namoro-trabalho-casa, ela resolvia aparecer. Ah, nossas fantasias se faziam presentes todos os dias. Claro, eu imaginei a minha vida ao seu lado quando percebi que o quadril dela se encaixava de lado com o meu. E quando ela também me ofereceu o lado da parede fria para dormi. Era uma delícia.

Rolávamos na cama e ficávamos rindo um dia todo se possível. Me incomodava apenas quando ela dava um passo mais íntimo do que aquilo que tínhamos. E sim, nós tínhamos algo. Mesmo que ela negasse olhando nos meus olhos. Sua pele era branca. Tatuagens pelo corpo me fascinavam. Lábios adocicados. Por vezes vorazes, noutras singelos, com gosto de bolo quente em tarde de domingo. Mas era só ela começar com suas brincadeiras que a minha pele avermelhada ardia toda. Experimentávamos todos os lados, cantos, maneiras e jeitos de tesão possíveis. No entanto, era por cima que eu conseguia me sentir satisfeito. Eu tinha em minha frente a melhor visão de todas: olhos, boca e peitos. Além de suas caras e bocas. Mas eu sabia, e ela só não quis mais aquilo. Mandou-me levantar e disse: pra fora! Fiquei em sua porta, batendo sem exaustão por dias e noites e noites e dias. Até que ela me cedeu. Me cedeu teu corpo, mente, conversas e um lugar em seu tempo tão corrido.

Por mim tudo bem. Eu tinha mesmo outros planos, mas nem por isso deixava de me arder em saudade quando ela teimava em não aparecer às quintas, sextas e sábados ensolarados. Tudo bem, quando eu me desesperava, esperava por ela à sombra daquele velho pé de jamelão. Tomávamos uma bebida verde, e quem nos conhecia sabia que aquilo era uma comemoração. Saíamos pela cidade, gritando para o mundo o quanto a solidão era um amargo desgosto. Ela tinha perequita acesa, e isso sempre foi um dilema para mim. Tão brilhante que quando a fila do motel era grande, nós fazíamos ali mesmo, sem pudor nenhum. Era bom! Eu fingi durante muito tempo que conseguia lidar com essa vontade repentina de outros corpos. Eu tremia de medo em achar que eu perderia tudo aquilo por qualquer outro ser humano bizarro. Não que eu não fosse, querida. Mas é que ... Até que me toquei que os nossos desejos passaram.

Mesmo assim era difícil para eu conseguir deixá-la ir. Manter ela longe do meu colo. Não ter mais as nossas conversas. Era um medo tão indiferente que até me dava medo. Era como não querer que a madrugada acabasse. Até que percebi: um hora ela ia acabar, e por aquela porta ela iria sair sem deixar nenhum bilhete de batom no espelho do banheiro. E foi assim que aconteceu. Com isso também me vi desejando outros corpos. Eu tentava esconder que tudo ia muito mal. Mal não, tudo muito desequilibrado. Só não entendia como ela não deixou de querer aquele corpo por tanto tempo, logo ela, viciada em outros. Era uma incógnita.

Exaurido eu vi aquela velha história me vencer. Pela pequena fresta da janela aberta, observava ela sorrindo com aquilo que sempre teve, e que nunca fiz parte. E outra vez, de longe eu era algo significante em sua vida. Alguém que observou sua felicidade e não tinha sequer a coragem de bater outra vez em sua porta. Acabou. E nas costas eu carregava uma bolsa, com sorrisos, momentos e uma força ímpar de virar o jogo. Jogo que nunca soube jogar.

... eu já vou daqui.

4 comentários:

Suzi Sarmento disse...

Carregar e dividir momentos com sinceridade. Nada paga. Vale tudo.

Unknown disse...

Nossa, pude sentir as sensações que uma paixão assim causa, e são lembraças que sempre levamos com a gente independente do tempo.

Srta. Clichê! disse...

É como a Suzi disse: "Naga paga. Vale tudo."
Acrescentaria apenas um 'nada APAGA!'
Ótimo texto, minha flor.

Rafaela Dutra disse...

[...] Alguém que observou sua felicidade e não tinha sequer a coragem de bater outra vez em sua porta. Acabou.

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Gosteiiiiiiiiiiii disso, muito lindo Thaty! Fazia tempo que não passava por aqui... Mas já voltei à tona em 2011 com td! rs...
bjo, bjo!