Alguém abre as cortinas, corre as vidraças, e tudo permanece como antes, aqui é o inferno, o ar petrificado betuma esta janela aberta, aqui é o inferno.
- é o inferno. Acho que as pessoas, as vezes, sem o saber, são lançadas em vida no inferno. Ficam girando em roda, passando eternamente sobre os mesmos pontos. Quero sair disso, não foi de modo algum para esse sofrimento que meu corpo reagiu a morte. Mas como, se perdi a identidade e não sei mais quem sou? Somos como dois corpos enterrados juntos, roídos pela terra, os ossos misturados. Não sei mais quem sou.
- é porque nos amamos. Estamos confundidos, cada um é si próprio e também é o outro.
- isso não é amor. Não se perde a identidade no amor. Mas no escritório, na vida coletiva; ou na demasiado solitária por falta de pontos de referência. No amor, pelo contrário, devemos reencontrar nossa identidade perdida.
- repito que, no amor, cada um é si próprio e é o outro.
- está bem. Que encontrei ainda, hoje, em minha busca, de si próprio e do outro?
- prefiro não falar. Isso passou.
- agora já me embriaguei, aderi à loucura. Quero saber.
Osman Lins, Os Confundidos
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