quarta-feira, 29 de outubro de 2014

ENTÃO, ADEUS!



[...]

Afastei-me e de longe ainda o vi, imóvel no topo da escadaria. A brisa agitava-lhe os cabelos ralos e murchos como uma chama prestes a extinguir-se. “Então, adeus!”, pensei comovida ao acenar-lhe pela última vez. “Adeus.”

       Nesta mesma noite houve o clássico jantar de despedida em casa de um casal amigo. E, em meio de um grupo, eu já me encaminhava para a mesa, quando de repente alguém tocou o meu ombro, um toque muito leve, mais parecia o roçar de uma folha seca.

       Voltei-me. Diante de mim, o padre velhinho sorria.

— Boa noite!

      Fiquei muda. Ali estava aquele de quem horas antes eu me despedira para sempre.

   — Que coincidência... — balbuciei afinal. Foi a única banalidade que me ocorreu dizer.— Eu não esperava vê-lo... tão cedo.

        Ele sorria, sorria sempre. E desta vez achei que aquele sorriso era mais malicioso do que melancólico. Era como se ele tivesse adivinhado meu pensamento quando nos despedimos na igreja e agora então, de um certo modo desafiante, estivesse a divertir-se com a minha surpresa. “Eu não disse até logo?”, os olhinhos enevoados pareciam perguntar com ironia.

       Durante o jantar ruidoso e calorento, lembrei-me de Kipling. “Sim, grande e estranho é o mundo. Mas principalmente estranho...”

    Meu vizinho da esquerda quis saber entre duas garfadas:

— Então a senhora vai mesmo nos deixar amanhã?

      Olhei para a bolsa que tinha no regaço e dentro da qual já estava minha passagem de volta com a data do dia seguinte. E sorri para o velhinho lá na ponta da mesa.

  — Ah, não sei... Antes eu sabia, mas agora já não sei.

Lygia Fagundes Telles

Um comentário:

Michiles, Alexandre. disse...

A última frase, dizendo absolutamente tudo!
excelente texto!!