terça-feira, 31 de março de 2009

Base sem base ?


foto: desconhecido


Naquela enfermaria havia gente de todo tipo. Havia idosos, crianças, adultos, mulheres, homens...Havia também dor, descaso e falta de sensibilidade. Havia rostos marcados pelo tempo, havia veias estouradas de necessidade. Católicos, evangélicos e descrentes. Uma parte mal falava, mas o barulho era perturbador. Uma cadeira me sobra, sento então. Do outro lado da enfermaria vem pulando em um pé só a menina. Mãos para trás. Algemada e acompanhada. Que delito ela cometeu ?! Roubo ? Homicídio? Sequestro? Sabe se lá... Por isso ela não tem o direito de se sentar! O corpo tem marcas dessas profundas, que se percebe de apenas olhar uma vez. Uma velha tatuagem de coração. E um sorriso amarelo. Olhos baixos, respiração cansada. Coitada, coitada ... Quer sentar ? Eu digo e repito. Não, não pode, é injusto com você. Mas porquê ? Mas porquê ? Há tanta dor nesse corpo, o pé está muito inchado. Poderia ao menos olhar ao seu redor, é injusto com eles. Enfermos e sem proteção alguma. Lá vem mais uma maca, nela há sangue, eu vejo. Há choro ao lado. Morreu? Não sei. Mas em cada mente havia um pedido desesperado de socorro. Na minha não era diferente. Aquela dor me fazia sangrar. Meus olhos de observar, lacrimejam. E aquele senhor que grita, diz o quê? É dor ou descontração? A mulher que acompanha o marido, é amor? O filho que se preteje dividindo o cobertor com a mãe, é saudade? Lá fora há uma fila enorme. Da Bahia, do Goiás, do Distrito Federal... Da pobreza, da cura, da visita, da espera, da esperança, da dor, da solidão, do sangue, do perdão, da fome, da chance... da morte.


foto: Valter Zica

2 comentários:

Srta. Clichê! disse...

Nêga... Todos os teus últimos textos têm me arrancado duas lagriminhas tímidas, cá dos olhos baixos!
Que texto, flor... Que texto!
Lembro-me de quando contou essa história, no bar... Escrevendo assim, ficou tão mais real...

Te amo...

[Careca sexta???]
o/

-rayane- disse...

Belíssimo texto sua chatonilda.
De verdade... uns dos melhores, qnd a dor é grande sempre saem palavras que chocam, palavras que sentem.

amo você