sábado, 18 de dezembro de 2010

Como resistir ao desconforto?

Ela estava só a espera de alguém que se tornava importante. Os dias eram diferentes depois de tal encontro. Se preocupava com a espera contínua de algo, mas não conseguia, ao certo, compreender o que se passava.

Estava traumatizada, machucada e decepcionada com a imagem que criou do mundo e das pessoas. Antes de alcançar o vazio, as coisas eram indiferentes. Não conseguia notar os sabores das cores e, muito menos, as formas diversas da ação das pessoas. Sentia muito em fazer delas apenas ponte para o aprendizado.

“Não sei como agir. Como resistir? Esperar? Respirar? Calma? Sim! Tudo isso“, pensou a garota enquanto tragava. Desconfortada com os acontecimentos recentes, passou a escondê-los, achava que assim seria mais fácil resolvê-los. Esqueceu-se das madrugadas, quando o sono não batia a porta e os pensamentos eram sempre vorazes.

Os olhos sempre carregados de dúvidas. Carregando o mundo de mentiras e medos criados pelo medo de ter medo. E esse era o maior problema, evitar sentir aquilo que, com facilidade, poderia lidar muito bem.

Era o medo de ser só. "Sozinho? É possível ser só? Tenho uma leve impressão que isso não é o problema. O problema está em esperar demais. Essa espera pode despertar a imaginação de maneira negativa. Assim é que a doença começa a se desenvolver. Doença da rotina - rotina de medos e ilusões", definiu ela. "Medo, maldito medo! Se tivesse carne e osso eu os arrancaria com toda a minha força! Com a força que tenho nos dentes e a força que nem imagino ter", bravejou.

Mas o medo estava nela como um parasita grudado em sua carne. Ele alcançou os seus ossos... É como se tudo terminasse com dois corpos se comendo em cima de qualquer lugar, apenas para não ser tão vazio.

E mesmo lugar após lugar: cama de motel, seu quarto escuro, banco de carro reclinado, bar, botequim ou bordel, o desconforto não a abandonava. A angústia maltratava-a e uma estranha sensação em seu peito a oprimia. “Expectativas”, ela repetia, "o que fode a vida são as expectativas”.

No entanto,  ela seguiu esperando o vislumbre de uma resposta que todos fingem saber, mas que poucos conhecem - se é que conhecem mesmo. Com suas desventuras, aprendeu a enxergar além da névoa que desnorteia, aprendeu a se esquivar dos sentimentos falazes que atingem os descuidados quando esses baixam a guarda.

Tornou-se uma exímia boxeadora na arte dos relacionamentos. Sempre muito bem fechada, mas ao mesmo tempo não deixava de espiar pela brecha de sua armadura. Esperando um sinal que pudesse ser reconhecido, em meio ao turbilhão caótico da vida veloz.

Ela sempre se aprimorava mais e mais em sua arte. Às vezes cansava de se defender e partia para o ataque, mas nesses momentos deixava o queixo exposto aos poderosos socos diretos do acaso e, caso fosse atingida, a queda poderia ser dura, mas ela já conhecia seus limites e gostava de se arriscar. Já sabia controlar a incerteza.

Primaveras se passaram e ela estava pronta, recebera da vida a mais alta graduação. Notável mestra incompreendida, impassível. Talhada em madeira maciça - impossível ser vergada, mas fácil de ser partida. Seguia sem anseios seu caminho, quando em um de seus encontros furtivos percebeu que sentia algo diferente, fatídico. Uma explosão de sentimentos sinestésicos a invadira.

Conseguia distinguir sabores nas palavras emitidas pela boca desejada. E cada beijo tinha uma cor avermelhada. O toque era como música, a mão firme percorrendo seu corpo emitia melodias que levavam ao gozo. Finalmente um adversário a altura, que a fez beijar a lona e perder os sentidos vitimada pela febre do coração. Que a fez pedir inúmeras revanches, que acabavam sempre em línguas entrelaçadas. E que beijo! Beijo mais doce - gosto de amora madura colhida no pé em tarde fresca de janeiro. 

E a garota que se tornara rocha, agora se abria em flor. Saltara sem hesitar no escuro abismo do amar, sem preocupação alguma com o quão fundo poderia chegar. Mas se preocupar pra quê? Quem bota a cara pra bater já deve esperar o soco. O máximo que pode restar são umas costelas trincadas, alguns dentes frouxos, um coração mais duro e uma pessoa mais forte.

Isso até o próximo embate.

3 comentários:

Srta. Clichê! disse...

Thaty, sua cachorra!
Que texto!
Parece taaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaanto com o que aconteceu comigo... Vc sabe do que eu tô falando, né?
Te amo, nega véa!

Rede Feminista de Saúde Direitos Sexuais e Reprodutivos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
-rayane- disse...

escreveu pr mim né?! fala a verdade? rsrs, lindo texto minha estrela.