quarta-feira, 2 de abril de 2014

Lírios

Eu consegui chorar. Finalmente.

Era meu aniversário e você me trouxe algumas flores amarelas. Havia até me esquecido do sentido de tanto cortejo, mas quando você chegou com aquele colorido nos olhos eu pude finalmente chorar. Não, não era o que eu queria ter feito naquele momento, mas me senti aliviada com as lágrimas. Com a sua presença.
Vários dias haviam se passado desde a nossa última discussão. E apesar de inesperado, eu pude finalmente me redimir das palavras daquela noite. Sei que você também não foi coerente, mas às vezes é preciso chegar a um “ponto final”.

Eu nunca disse, mas senti medo. Não de você partir, mas de você não entender as minhas palavras e os meus medos.  A minha vida não pode mudar assim... Não posso deixar que ninguém a me tire de volta outra vez.  Mudanças implicam em novos comportamentos e o novo, um dia, por mais clichê que pareça, vai se tornar velho.

Por meia hora fiquei a te olhar no dia em que você veio. Te olhar me acalma, me deixa distante do mundo e da vida carregada que levo. Das demências noturnas que passo. A taça quebrada e cama bagunçada são algumas das coisas que restaram logo pela manhã. Bagunça que não voltará a acontecer. Não. Não por nós, eu sei. Mas por mim.

Outro dia o telefone tocou muitas vezes. Era você e, por mais que eu negasse, sabia que do outro lado da linha era a sua respiração ofegante que escutava. Apesar de não falar, eu entendi o que queria dizer. Entendi tanto que depois da décima tentativa de te fazer falar uma única palavra, desisti. Escutei, da sala, o eco do telefone tocar no escritório.

Era uma noite silenciosa e a chuva respingava ainda no chão da sala e do quarto. Por mais que voz tenha se calado, eu entendi. Eu entendo.

E eu ainda espero que você sinta... Finalmente.

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