sábado, 7 de março de 2015

Madrugada



Os olhos não cruzaram, mas a voz encantou. O sussurro na madrugada a fez sentir adolescente e uma fresta se abriu em sua armadura. Os questionamentos tão constantes a fizeram reconhecê-lo como um adversário. Os mundos opostos só se encontraram na discussão - argumentos, julgamentos. Não subestimou a vontade do beijo, do gosto. Desejou por toda uma madrugada sua companhia. Apesar dos quilômetros, sentiu. E como breve voar, tudo pode terminar. Mas reconheceu que por trás do sotaque malandro, havia um grande cara.

Adormeceu. Em seu sonho não havia mais distância, nem titubear. No chão do quarto em desfoque, além de calças e sapatos, arrogância e aquele certo ar dissimulado típico de quem mora na cidade maravilhosa. Entranhado nos lençóis, todo o mais. O cheiro da maresia que ele trouxe consigo misturado em seu perfume, inebriava. Apesar de saber que sonhava, fez tudo o que tinha que fazer, sentia todo o prazer da união daqueles corpos - corpos sem rostos e línguas. Gostos embalaram aquela transa e como criança, adormeceu. 

Acordou e um vento balançava as cortinas - já não era a brisa do mar, era apenas o ar seco da rotina... Mas na boca havia ainda o gosto bom de sonhar.


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